sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Dança dos Corvos


Não posso ver uma janela
Sem que eu resista a me jogar
A morte é uma sinfonia tão bela
Fecho meus olhos e me deixo bailar
Apaga minha dor como quem apaga uma vela,
Cuja fumaça faz minha alma se dissipar
Não mais careço da vergonha diante do espelho
E minhas costas se despedem do seu relho

Uma flor negra toma o céu
Nas asas de pássaros inquietos
Embelezando a janela do meu mausoléu
Colocando meus intestinos despertos
A clamar a salvação desse pobre réu
Diante de seus medos certos
Finalmente, meus ossos gozam de um pouco de paz
Ao vislumbrar o sepulcro onde meu corpo jaz

Voar o mais alto que se consegue
Para depois despencar de costas
Mais rápido do que a vergonha o persegue,
Cai um corpo de asas justapostas
No leito eterno em que sua alma sossegue
Flores vermelhas, no chão, dispostas
Um frio domina minhas entranhas corroídas
Que reviram-se ao bailar dos corvos suicidas

Tamanho desprendimento,
Ou tamanha loucura
O faz ignorar o quinto mandamento
Tamanho arrependimento,
Ou a certeza do sofrimento
O faz fugir quando Deus o procura
A ponto de crer que a morte é a cura
De todo o mal, o único livramento

Há muito tempo, venho me esgueirando
Feito um pássaro com as asas quebradas, agonizando
Implorando que a morte me leve
Ou quem sabe, o diabo se canse e me carregue
Não quero mais invejar cada corpo que se despedaça
Desejar que fosse eu cada alma que vira fumaça
Quero fazer a mim mesmo esse favor
Entrar no vale dos suicidas com louvor

Meu sangue tecerá o tapete vermelho da minha chegada,
Varrendo o vexame a que minha vida foi consagrada
Debaixo da minha mortalha, ensaio meu último sorriso
A despeito do meu cadáver, a vida inteira, submisso
Fechem logo a tampa, carreguem meu caixão
Mal posso esperar para estar a sete palmos abaixo do chão
As cicatrizes na pele não são meros cortes entalhados, 
Mas litros e litros de choro, em uma existência, sublimados

Com a corda amarrada no pescoço,
Exalto as penas caídas sobre o chão
Como, outrora, exaltei as estrelas na imensidão
Que, a essa altura, já serviram aos urubus de almoço
De cima da cadeira, faço um pequeno esboço
Até que o pé resvale no fatídico empurrão
Que não me duvidem todos os dementes:
O inferno é apenas para os valentes

Nenhum comentário: