terça-feira, 30 de agosto de 2016

Adeus Amigos

Quantas e quantas vezes tive que me ajoelhar
Para o dono do amazém da esquina
Se não quisesse chegar em casa e apanhar
Minha memória era minha triste sina

Quantas e quantas vezes também me ajoelhei
Para não ser expulsa da única casa que conhecia
Embora, a felicidade, ali, nunca batia,
Mas, pelo menos, na rua, não me criei

Quantas e quantas vezes chorei,
Pois minha mãe estava doente,
Mas meu pai era todo sorridente
E o preço do ódio, fui eu quem paguei

Quantas e quantas vezes me lembro de ter ajoelhado
Para minha colega devolver o caderno
Que eu havia emprestado
Em troca, fui parar no inferno

Que maldição, ainda estou ajoelhada!
Tudo, para me manter empregada
Enquanto meus inimigos dão risada
E aqui vomito minha ira engasgada

Pela primeira vez sorri,
Recolhi do chão, meus joelhos achatados
A crueldade foi tanta que enlouqueci
E minha loucura deixou meus dias contados

Adeus amigos, não voltarei a perturbar
Adeus amigos, aqui nunca foi mesmo o meu lugar
Adeus amigos, deixem minha alma em paz no infinito
Adeus amigos, façam o favor de esquecer que eu existo

Meu coração está prestes a rasgar o peito
Encontro-me amolecida em meu leito
Espero que a náusea não me acompanhe no além
Já que, a vida inteira, dela, fui refém

Há tantas coisas que eu queria ter realizado
Tantas outras, eu daria tudo para ter apagado
Mas, nem de tudo, vejo-me arrependida
Até que não me saí nada mal como aprendiz da vida

Não deixarei carta de despedida
Em alguns, ficará a dor desmedida,
Embora muitos, expressarão a alegria da minha partida
Saio da minha vida, como de tudo saí: de cabeça erguida

Quem quiser, acenda uma vela por mim e ore
Quem não conseguir segurar, tudo bem, apenas chore
Quem quiser, está convidado a cuspir no meu caixão
Tanto faz, já estarei a sete palmos abaixo do chão

Adeus amigos, estou indo para não voltar
Adeus amigos, aqui nunca foi mesmo o meu lugar
Adeus amigos, fiquem contentes por mim
Adeus amigos, meus joelhos estão livres, enfim