terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Injúrias Póstumas

Não queime meu corpo
É tudo o que tenho a pedir
Não sou um cachorro morto
Mesmo que não queiras se despedir

Por menos louvável,
Que tenha sido minha tragetória
Não precisa fingir ser amável
Só não insulte a minha memória

Não necessito de lágrimas
Debochando do meu caixão
Fechem essas bocas pasmas
Quero apenas a chuva molhando o chão

Não roubem minha coroa de flores
Permitam-me essa pequena satisfação
Em receber uma única condecoração
Que me faça valer todos esses anos de dissabores

Dispenso a missa de sétimo dia
Não precisa transferir a terceiros
A tarefa de lebrar da minha vida vazia
Apenas deixem os vermes serem ligeiros

Não sou tola o bastante
Para pensar em deixar saudades
Seria muito arrogante
De alguém que, sequer, teve amizades

Se fui uma boa filha,
Ou uma completa estabanada,
Isso já não vale mais nada,
Para quem já encerrou sua trilha

Nenhuma ofensa mais me importa
E também a tardia gentileza
Não cansem minha beleza,
Uma vez que já estou morta

Não profanem minha lápide
Escarneçam minha reputação
Uma última vez, antes que seja tarde
E me deixem sozinha na minha escuridão

Esteja onde estiver, estou em paz agora
Meu estômago está livre do seu carma visceral
Dirijam-se ao portão, está na hora
Já anoiteceu e acabou meu funeral