quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

A Morte Ama a Todos
Deixe-me passar, estou de saída
Não há mais nada aqui para ser visto
Estou no chão, de joelhos, rendida
De mim mesmo, antes de mais nada, desisto
Minha torre caiu aos escombros, vencida
Inerte, minha triste derrocada, assisto
Ansiando a paz do sono eterno,
Um berço livre das garras do inferno

Lanço, longe de mim, 
Meus sentimentos que já não me tocam
Chamo de alívio, não de fim
O perecer dos medos que me sufocam
A vergonha já não pesa sobre meus ombros, enfim,
Pois as memórias já não mais importam
Tudo se dissipa junto ao meu espírito
Tornando-se uma estrela a brilhar no infinito

Mas que divina visão!
Uma jovem a cair do precipício!
Seu sangue se esparramando pelo chão
Anuncia ao mundo o fim do seu suplício
Um rompante de dor e escuridão
Do sofrimento, já não resta o menor resquício
A morte não é o fim, mas o começo
Por mais alto que pareça o seu preço

A negra mãe me acalenta em seus braços
Meu cadáver debocha dos meus falsos laços
Posso fechar os olhos e dormir feito uma criança
A salvação da morte é minha obstinada confiança
A igualdade que somente ela dá
A despeito da Criação que o homem tornou má
A vida pode dar a última risada
Mas é a morte quem dá a última cartada

Feche seus olhos e entregue-se a ela também
É tolice, desse mundo, continuar refém
Quantas lágrimas e quanto vômito desperdiçados
Para ver sonhos e mais sonhos despedaçados
E junto com eles, sua alma quebrantada
Para os devassos poderem dar uma gargalhada
Estou farta de me flagelar com esperanças frustradas
Chorando, noite após noite, sobre as Escrituras Sagradas

Meu estômago já está livre do seu fardo
Não precisa mais chorar no lugar dos meus olhos
Ruminando a ira que o atravessa feito um dardo
Oculta no reflexo dos espelhos,
Mas exposta no meu abdômen dilatado
Não importa, agora está tudo enterrado
Junto à minha carne em decomposição
Cujo coração já foi arrancado

Deixaram-me nua
Tiraram-me tudo o que eu tinha
É assim que uma essência definha
Feito um cão desesperado uivando para a lua
Nunca me bastou chorar sozinha
Por isso derramei meu rancor na rua
Saboreie minha desgraça você também, vizinha
Feito um abutre a deliciar-se da carne crua

Vaguei por esse mundo
Amargando tanta ira que enlouqueci
Em meu próprio inferno, mergulhei fundo
E a vida passou diante dos meus olhos e não vi
Deixo, em gratidão, meu canto morimbundo
A ferida cuja sangria transcrevi
Acorde em meio à noite, ouça os corvos cantarem
Feche sua porta assim que minhas cinzas se espalharem

Não tenha medo, dê um passo à frente
A mãe generosa ama a todos igualmente
Abrace-a forte, desfrute do seu alento
Em seus braços gélidos, amorteça seu sofrimento
Corra até ela, não a faça esperar
Seja qual for seu credo, ela quer te salvar
Dê sua mão a ela, não tema mais nada e mais ninguém
Pois a morte ama a todos e a você também