sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Melancolias e Alguns Versos VIII


Gostaria de não ter mais
Um coração preso ao meu peito
Assim, não sofreria jamais
E minha existência teria algum jeito

E meu olhos não mais seriam
Como nuvens carregadas
Sobre o meu rosto, não mais choveriam,
Deixando minhas esperanças nubladas

Minha entranhas não mais sangrariam
A mágoa que não conseguem remoer
Minhas veias não mais sofreriam
Com a ira, no sangue, a ferver

No meu mundo de fantasia,
Embora o ódio dê cria,
Ainda há uma certa magia,
E ninguém triunfa sobre a minha sangria

Há um horizonte além da dor
Trancafiado na minha mente
Onde sobrevivi, mesmo doente,
Após ser banida pelo Criador

Amaldiçoada desde a concepção,
A vagar por esse mundo sem amor
Assumo minha solidão como única opção
Pois não cabe mais em mim tanto rancor

Não há paz em meus ossos,
Meus intestinos serpenteiam em meu ventre
Meu estômago já não digere tantos remorsos
Abro minhas portas para que a loucura entre

Tanto fugi do que realmente sou,
Que meu pecado por fim me encontrou
Alastrou-se pela minha alma feito pestilência
Roubando-me a sanidade e a decência

Tanto fugi aos olhos do Divino,
Para não tomar em vão seu santo nome
Fechei minha bíblia e aceitei meu destino
Com meu próprio sangue, saciei minha fome

Fechei meus ouvidos às verdades sagradas,
Juntando-me à massa de almas desgarradas
Meu espírito afunda em mares revoltos
Onde jazem meus sonhos natimortos

quarta-feira, 19 de outubro de 2016


Menina porca, avançou-se no banquete
Comeu com tanta ignorância,
Que não aguentou mais a ânsia
E vomitou tudo no tapete

Menina porca, vá se olhar no espelho
Olhe só o tamanho do seu traseiro
E ainda quer que um homem lhe jure amor verdadeiro
Eu vou é te dar uma surra de relho!

Menina porca, limpe já esse chão!
Olhe a sujeira desse quarto!
Para você se mexer é um parto
E depois não sabe por que está desse tamanhão

Menina porca, não fale sozinha
Não bastasse ser gorda, ainda é louquinha
Não me envergonhe diante dos vizinhos
Não aguento mais sair na rua e ouvir burburinhos

Menina porca, que comida mais horrível!
Nem para cozinhar se presta,
Mas come que chega a ser incrível
Temo pelo futuro que te resta

Menina porca, que louça é essa na pia?
Tenho mesmo que bater nessa sua cabeça
Para ver se entra algo na sua mente vazia
E, algum dia, quem sabe, você cresça e apareça?

Bem-feito, menina porca!
Não adianta ficar toda mordida
Só por que descobriu que está sendo traída
Afinal, quem quer a seu lado uma orca?

Menina porca, por favor, tenha logo um infarto
Assim você para de comer
E eu me livro logo desse fardo
Pois você nunca será feliz enquanto viver

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Adeus Amigos

Quantas e quantas vezes tive que me ajoelhar
Para o dono do amazém da esquina
Se não quisesse chegar em casa e apanhar
Minha memória era minha triste sina

Quantas e quantas vezes também me ajoelhei
Para não ser expulsa da única casa que conhecia
Embora, a felicidade, ali, nunca batia,
Mas, pelo menos, na rua, não me criei

Quantas e quantas vezes chorei,
Pois minha mãe estava doente,
Mas meu pai era todo sorridente
E o preço do ódio, fui eu quem paguei

Quantas e quantas vezes me lembro de ter ajoelhado
Para minha colega devolver o caderno
Que eu havia emprestado
Em troca, fui parar no inferno

Que maldição, ainda estou ajoelhada!
Tudo, para me manter empregada
Enquanto meus inimigos dão risada
E aqui vomito minha ira engasgada

Pela primeira vez sorri,
Recolhi do chão, meus joelhos achatados
A crueldade foi tanta que enlouqueci
E minha loucura deixou meus dias contados

Adeus amigos, não voltarei a perturbar
Adeus amigos, aqui nunca foi mesmo o meu lugar
Adeus amigos, deixem minha alma em paz no infinito
Adeus amigos, façam o favor de esquecer que eu existo

Meu coração está prestes a rasgar o peito
Encontro-me amolecida em meu leito
Espero que a náusea não me acompanhe no além
Já que, a vida inteira, dela, fui refém

Há tantas coisas que eu queria ter realizado
Tantas outras, eu daria tudo para ter apagado
Mas, nem de tudo, vejo-me arrependida
Até que não me saí nada mal como aprendiz da vida

Não deixarei carta de despedida
Em alguns, ficará a dor desmedida,
Embora muitos, expressarão a alegria da minha partida
Saio da minha vida, como de tudo saí: de cabeça erguida

Quem quiser, acenda uma vela por mim e ore
Quem não conseguir segurar, tudo bem, apenas chore
Quem quiser, está convidado a cuspir no meu caixão
Tanto faz, já estarei a sete palmos abaixo do chão

Adeus amigos, estou indo para não voltar
Adeus amigos, aqui nunca foi mesmo o meu lugar
Adeus amigos, fiquem contentes por mim
Adeus amigos, meus joelhos estão livres, enfim

sábado, 14 de maio de 2016

Aos Pés de Jade

Feche a janela, meu amor,
Pois o frio da minha alma já me basta
Não necessito de nada do mundo exterior
Que, por natureza, já me devasta

Só seus braços podem me aquecer
E seu sorriso me fazer levantar
Só seu colo pode me acalentar
E do meu tormento, fazer-me esquecer

Meu mundo não é pequeno,
Apenas não preciso de mais nada
Não é fácil sorver o veneno
Mas, com você, minha alma é blindada

Leve-me ao paraíso,
Nem que seja por um instante
Dádiva negada a mim pelo Juízo
Minha eterna sina sufocante

Em seus braços,
Não há pranto nem ranger de dentes,
Ou alma em estilhaços,
Pois os sonhos se fazem presentes

A seus pés, aqui estou,
Amada Jade
Enfrentando o calor ou a tempestade
Pois agora sei que anjos são de verdade

Você é a única verdade em meu mundo
A marca de Deus na Criação
O berço do meu sono profundo
E não à toa, minha inspiração

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Injúrias Póstumas

Não queime meu corpo
É tudo o que tenho a pedir
Não sou um cachorro morto
Mesmo que não queiras se despedir

Por menos louvável,
Que tenha sido minha tragetória
Não precisa fingir ser amável
Só não insulte a minha memória

Não necessito de lágrimas
Debochando do meu caixão
Fechem essas bocas pasmas
Quero apenas a chuva molhando o chão

Não roubem minha coroa de flores
Permitam-me essa pequena satisfação
Em receber uma única condecoração
Que me faça valer todos esses anos de dissabores

Dispenso a missa de sétimo dia
Não precisa transferir a terceiros
A tarefa de lebrar da minha vida vazia
Apenas deixem os vermes serem ligeiros

Não sou tola o bastante
Para pensar em deixar saudades
Seria muito arrogante
De alguém que, sequer, teve amizades

Se fui uma boa filha,
Ou uma completa estabanada,
Isso já não vale mais nada,
Para quem já encerrou sua trilha

Nenhuma ofensa mais me importa
E também a tardia gentileza
Não cansem minha beleza,
Uma vez que já estou morta

Não profanem minha lápide
Escarneçam minha reputação
Uma última vez, antes que seja tarde
E me deixem sozinha na minha escuridão

Esteja onde estiver, estou em paz agora
Meu estômago está livre do seu carma visceral
Dirijam-se ao portão, está na hora
Já anoiteceu e acabou meu funeral

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

A Morte Ama a Todos
Deixe-me passar, estou de saída
Não há mais nada aqui para ser visto
Estou no chão, de joelhos, rendida
De mim mesmo, antes de mais nada, desisto
Minha torre caiu aos escombros, vencida
Inerte, minha triste derrocada, assisto
Ansiando a paz do sono eterno,
Um berço livre das garras do inferno

Lanço, longe de mim, 
Meus sentimentos que já não me tocam
Chamo de alívio, não de fim
O perecer dos medos que me sufocam
A vergonha já não pesa sobre meus ombros, enfim,
Pois as memórias já não mais importam
Tudo se dissipa junto ao meu espírito
Tornando-se uma estrela a brilhar no infinito

Mas que divina visão!
Uma jovem a cair do precipício!
Seu sangue se esparramando pelo chão
Anuncia ao mundo o fim do seu suplício
Um rompante de dor e escuridão
Do sofrimento, já não resta o menor resquício
A morte não é o fim, mas o começo
Por mais alto que pareça o seu preço

A negra mãe me acalenta em seus braços
Meu cadáver debocha dos meus falsos laços
Posso fechar os olhos e dormir feito uma criança
A salvação da morte é minha obstinada confiança
A igualdade que somente ela dá
A despeito da Criação que o homem tornou má
A vida pode dar a última risada
Mas é a morte quem dá a última cartada

Feche seus olhos e entregue-se a ela também
É tolice, desse mundo, continuar refém
Quantas lágrimas e quanto vômito desperdiçados
Para ver sonhos e mais sonhos despedaçados
E junto com eles, sua alma quebrantada
Para os devassos poderem dar uma gargalhada
Estou farta de me flagelar com esperanças frustradas
Chorando, noite após noite, sobre as Escrituras Sagradas

Meu estômago já está livre do seu fardo
Não precisa mais chorar no lugar dos meus olhos
Ruminando a ira que o atravessa feito um dardo
Oculta no reflexo dos espelhos,
Mas exposta no meu abdômen dilatado
Não importa, agora está tudo enterrado
Junto à minha carne em decomposição
Cujo coração já foi arrancado

Deixaram-me nua
Tiraram-me tudo o que eu tinha
É assim que uma essência definha
Feito um cão desesperado uivando para a lua
Nunca me bastou chorar sozinha
Por isso derramei meu rancor na rua
Saboreie minha desgraça você também, vizinha
Feito um abutre a deliciar-se da carne crua

Vaguei por esse mundo
Amargando tanta ira que enlouqueci
Em meu próprio inferno, mergulhei fundo
E a vida passou diante dos meus olhos e não vi
Deixo, em gratidão, meu canto morimbundo
A ferida cuja sangria transcrevi
Acorde em meio à noite, ouça os corvos cantarem
Feche sua porta assim que minhas cinzas se espalharem

Não tenha medo, dê um passo à frente
A mãe generosa ama a todos igualmente
Abrace-a forte, desfrute do seu alento
Em seus braços gélidos, amorteça seu sofrimento
Corra até ela, não a faça esperar
Seja qual for seu credo, ela quer te salvar
Dê sua mão a ela, não tema mais nada e mais ninguém
Pois a morte ama a todos e a você também