quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Ratazana
 

Não consigo dormir
Pois estou com fome
Enquanto essa ardência persistir,
Protestará meu abdômen

Mesmo no meio da sujeira,
Triunfa minha sina de sobreviver
Por mais que minha tristeza seja verdadeira
Cá estou, condenada a viver

Pobre mulher-rato,
Devorando tudo o que vê no prato
Nascida da guerra contra a mãe-natureza
E fustigada com a mesma falta de nobreza

Sem coração no peito,
O estômago assume essa árdua função
Víscera oca, a quem não cabe a noção
Não me concede o devido respeito

Ao vencedor, as batatas
E no vencido, sentam as patas
E há quem não resista em dar risada
Sempre que vê uma alma derrotada

Destinada a viver envergonhada
De tudo, nessa vida, sendo enxovalhada
Resta apenas amargar o rancor derradeiro
Ou escondê-lo na escuridão do bueiro

Que triste vida dessa pobre ratazana
A quem a humanidade tanto atazana
Não que essa careça de raticida
Mais do que a soberba humana, de um bom pesticida

Meu estômago chora por mim
Já que meus olhos não estão mais a fim
Às baratas, confio toda a minha injúria
Impregnando esse poema com minha lamúria

Viver na boca do povo,
É nada mais do que viver no esgoto
Bode-expiatório do alheio desgosto
Em cada língua, saborear um veneno novo

Pior do que a escassez,
São as migalhas de afeição
Prefiro manter minha lucidez
Ainda que seja em completa solidão

Não me considero orgulhosa,
Mas recuso esmolas de piedade
Uma coisa é alma desdenhosa
Outra, é verdadeira amizade

Procurando o amor verdadeiro,
Como quem procura estrelas em um céu nublado
Lá vou eu, mexendo as patas ligeiro,
Na eterna busca por um sonho defasado

Olho para o meu reflexo decadente
Seria digno de piada
Se eu conseguisse, ao menos, dar uma risada
Mas não sou, a tal ponto, tão doente