domingo, 13 de setembro de 2015

A Ovelha e o Besouro
      (Poema à Mãe)

Como vai, desconhecida?
Todo o dia a mesma vida
Vestindo a mesma roupa batida
Para entrar no mesmo beco sem saída

Como vai, vizinha?
Sempre dando o melhor de si
Em meio à tanta erva-daninha
Determinação igual, jamais vi

Aonde vai com tanta pressa?
Sempre correndo contra o tempo
Superando até a velocidade do pensamento
Para servir a quem não te presa

Por que seu corpo dói, afinal?
Que fardo pode ser mais pesado,
Do que o destino sacramentado
Ditado por um ciclo fatal?

Sou apenas um pequeno besouro
Escondendo a fraqueza sob minha carapaça
Como você oculta o peso sobre sua carcaça
Exibindo o sorriso no lugar do choro

Não sabe o quanto me sinto culpada,
Mas sou tão pequena,
Que me vejo de mãos atadas
Pela realidade que triunfa plena

Quisera eu poder deixar de existir
Se isso fizesse seu sofrimento sumir
Queria poder ser mais na sua vida
Do que uma crônica ferida

Meus pensamentos se esvaem
E minhas atitudes me traem
Por isso, não hesito em me calar
Diante à sina que minhas mãos não podem mudar

Ambas permanecemos conformadas
Ambas seguimos com nossas bocas caladas
Você, com seu pesar que parece eterno
E eu com mais uma dívida a pagar no inferno

Mas, de mim, já era de se esperar,
Afinal, ervas-daninhas nunca param de brotar
Nem que seja para crescerem do lado errado
E florescerem regadas pelo pecado

Mas e você, ovelha branca,
Por que sorve dessa maldição?
Por onde o seu pastor anda,
Que não vem logo dissipar essa escuridão?

Saia já do vale da sombra da morte
Todos os anjos já sabem que você é forte
Não tente aquecer essa frígida irmã
Gastando, em vão, a sua preciosa lã

Vagar pelo mundo sem amor
Não é culpa de ninguém
É o destino do qual sou refém
O único horizonte ao meu dispor

Estou sempre por perto,
Pousada sobre o seu ombro
Mesmo que eu não passe de um inseto
Aos olhos de quem tanto assombro

Sou a observadora oculta,
A secreta companheira
Para além da chuva passageira
Que ninguém cala, tampouco, sepulta

Sou o pior pesadelo,
Atento, vendo-te dormir
Alisando seu cabelo
Antes que eu deva sumir

Não quero mais ser inimiga,
Por isso, prefiro a ausência
Derramando, no papel, a dor que me fustiga
Solitária, mas em paz com a minha consciência

Desejava ser ainda mais pequena
A ponto de não ser mais lembrada
Assim, o rancor não nos envenena
E seu desprezo não me deixa quebrada

Tudo o que sinto,
Tudo o que teria a dizer,
Não importa, fico sem ter o que fazer
Afinal, para você, eu sempre minto

Resta-me apenas olhar para você
Já que não posso lhe dirigir a palavra
Da sua mágoa, serei eterna escrava
Mesmo a seu lado, você nunca me vê

Resta-me a tristeza antes de dormir
Por aquilo que nunca será falado
Feito um poema inacabado
E assim será, até uma de nós partir