domingo, 28 de junho de 2015

Melancolias e Alguns Versos VII

Tamanho é meu ânimo,
Que nem consigo cortar os pulsos,
Deixando ao órgão antônimo,
O dever de sublimar os meus soluços

Ao meu estômago, todo o pesar foi imposto
Já que o coração está de licença, indisposto
Minhas pálpebras não disfarçam o desgosto,
Por mais que eu volte para baixo o meu rosto

Decidi não mais chorar
No máximo, permito meu esôfago arrotar
A tristeza que a mente não consegue derrotar
E minhas tripas não digerem, não adianta orar

Faço poesia,
Para não morrer de apatia
Vagando feito um espírito perdido,
Murmurando que a vida não tem o menor sentido

Nem do corpo, nem da mente,
De nada disso estou doente
Prefiro vomitar a minha indignação
A ter que engolir calada a minha alienação

Estamos todos igualados
No mesmo rebanho de condenados
Tentando sorrir mesmo estando amordaçados
E não enlouquecer de olhos vendados

No fundo, não passamos de miseráveis mutilados,
Um pouco por dia, sendo desmembrados
Talvez, no fundo, querendo viver
Mas nossa carcaça nos entrega, estamos a perecer

Vivendo vidas que não podem ser cantadas
No máximo, em uma folha de papel, lamentadas
Pai, dê-me logo esse cálice, tende piedade
Deixe-me beber, do veneno, a liberdade

Minhas lágrimas já desceram pelo esôfago
Passaram pelo coração e caíram no estômago
Convertidas no ácido castigo do meu sofrimento
E nas pontas de sangue que elimino no meu excremento

Meus interiores cheiram mal,
Estou me desintegrando
Quisera poder estar me libertando,
Mas a verdade é ainda mais brutal

Com a morte iminente,
Quisera eu estar com medo,
Mas minha mente está tão ausente
Que minha vida se torna brinquedo

A noite, vestida de escuridão,
Paradoxalmente, devolve-me a razão
E com a graça de Deus, o medo me visita
E lembro-me, com certeza, de que estou viva

Dispenso a auto-confiança
Um delírio na mente dos loucos,
Um baú de ouro dos tolos,
Armadilha, essa, que não me alcança

O laço do passarinheiro,
A peste perniciosa,
Consome o homem ligeiro,
Essa perdição da alma orgulhosa

O frio na espinha é minha imunidade
Não que isso faça de mim uma corvarde
Setas se partem antes de me atingirem
Pois permito, sem pudores, meus sentidos se afligirem

Assim, tentei me manter longe dos meus predadores
Embora, muitas vezes, sendo rendida pelas minhas dores
Nem que fosse para assistir minha autoderrocada
Vendo meus ossos se contorcerem, dando risada

Todo e qualquer esforço é inútil
Mas, para o homem, é uma desculpa útil
Se toda a vida tivesse uma razão de ser
A humanidade não estaria a um passo de enlouquecer

Dor e silêncio regem a noite
Meus olhos vagam vazios pela escuridão
Minha carne aguarda passiva sua danação
Feito um condenado aguardando seu açoite

Estou de braços abertos, no chão
Sou uma cruz a ser carregada
Pois estou farta de lutar por uma ilusão
E cair de joelhos, sempre envergonhada