sexta-feira, 15 de maio de 2015

Dizeres à Jade

Nunca estou só com meus pensamentos,
Pois você está em mim em todos os momentos
Mesmo que só me reste amargar a realidade
Você é minha doçura, estimada jade

Entre trevas e potestades,
Eis que resplandece meu anjo de luz
Dispersando, gentilmente, as calamidades
Removendo, dos meus ombros, a pesada cruz

Cada dia ao seu lado,
É um presente do divino universo
Grandioso demais para um simples verso
E para, neste coração, ser guardado

Quebrarei os espinhos,
Antes de ver seus pés sangrarem
Por trás das sombras, velarei seus caminhos
Antes que eu veja seus olhos chorarem

Pedras preciosas
Devem ser bem guardadas
Pessoas valiosas
Merecem ser exaltadas

Só você, jade companheira,
Viu-me cair e me ajudou a levantar
Aceite, de mim, a devoção verdadeira
De quem ensinaste a ver a luz brilhar

Deste à minha alma,
A dádiva da ressurreição
Seu abraço me protege e me acalma
Libertando, das trevas, meu coração

Meus olhos não olham para a escuridão
Quando ouço você chamar meu nome
Colocando, sobre a minha cabeça, a sua mão
Seu amor repreende o mal que me consome

Não sei, minha bela jade,
Se és anjo ou homem
Se és sonho ou realidade
Um simples delírio, ou felicidade

Mas sei que venceste a truculência,
Com gentileza, derrubaste a resistência
Guiando essa alma perdida na escuridão
Até, por fim, tomar-me o coração

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Prostituta


Você dá a ela
Seu dinheiro e seu gemido
E ela te dá seu cio de cadela
E seu cinismo na forma de um ganido

Você paga por um pouco de ternura,
Oferecendo seu pênis em forma de tortura
Na esperança de arrancar dela um pingo de prazer
Mas tudo o que ela quer é te ver morrer

As lágrimas dela correm
Enquanto grumos de esperma escorrem
Você pensa que ela chora de emoção
Mas o ódio já necrosou seu coração

Você a faz dizer que te ama,
Puxando forte a sua coleira
Você a tem como sua loba na cama
E tem dela seu asco, filho da sujeira!

Você aponta seu pênis, pronto para amar
Faça logo o que você quer fazer
Pois ela quer ir logo se lavar
E seu dejeto, no ralo, derramar

Depois de tanto meter,
Você joga sobre ela seu corpo suado
Sob você, sucumbe o corpo dela usado
E tudo o que ela quer agora é morrer
Zumbi


Meu coração foi arrancado do peito,
Finalmente, estou anestesiada
Meu sangue é ódio liquefeito
A esvair da minha garganta cortada

O pecado é um prego fincado no meu pé,
Delatado pela minha mancada
Suga meu credo, ofende minha fé
Manchando de vergonha minha pegada

Não preciso mais de sentimentos
Apenas quero vagar
De mente vazia, despida de pensamentos
Até a terra se abrir e me tragar

Lixo do esperma paterno,
Fermentado no ventre materno
Amaldiçoada assim que concebida,
A essa minha eterna morte em vida

Por favor, peço que não ore por mim
Apenas deixe meu espírito ir embora
Agradeça a cada verme que me devora
A paz que jaz sobre o meu fim

Meu estômago sofre o ardor,
Remoendo a ira que o fere
Minha boca regurgita o rancor
Da injúria que nunca digere

Minha língua não se guarda
De falar o engano
A despeito do castigo que aguarda
Todo o ingrato ser humano

As sementes do mal se propagam
Feito ervas-daninhas sobre a criação
A marca divina, apagam,
Escondendo-a na sombra da perversão

Lágrimas tão podres,
Quanto os olhos que as choram
Alma sem valores,
Cujas carnes se descoram

Não o fedor da morte,
Mas o cheiro da corrupção
Exala forte
O meu cadáver em putrefação

O pecado original,
Que o santo batismo não lava,
Impregna esse corpo mortal,
Que nem uma legião de anjos salva

Falo com meus intestinos,
Pois, de mim, eles não duvidam
E com a dor, eles me revidam
Eternos confidentes dos meus desatinos

Ao invés de oração,
Apenas enterro o meu lamento
Junto ao meu coração,
Cerne do meu sofrimento

Há muito, já sucumbi,
Deixei minha alma naufragada
E minha consciência ser tragada
Por esse meu vazio de zumbi
Paradoxo


Tenho inveja das árvores
Justamente por ser lenhadora
Paradoxo que não impõe cárceres
A uma mente sonhadora

A seiva em meu machado,
Também é meu sangue, ali, deixado
Cada corte, no tronco, entalhado
É cada cicatriz de um passado marcado

Para não sucumbir à loucura,
Não necessariamente,
É preciso fingir a cura
E negar o que atormenta a mente

Não posso reescrever o que passou,
Embora não signifique que acabou
Mesmo que eu não toque a ferida esquecida,
Lembro-me dela quando sua dor é sentida

Queria ser como uma árvore
Apenas balançar minhas folhas ao vento
Sem ter medo de pernoitar ao relento
Ou temer tudo o que se move

Quem dera, raízes fincadas no chão,
Serem uma boa desculpa para a minha preguiça
Uma boa justificativa para a minha estagnação
O álibi de que todo o covarde precisa

Há muito, abandonei minha moral
E abracei a minha falta de vontade
Em cada dia desperdiçado, banal,
Jaz o pouco que resta da minha vaidade

Se eu apenas pudesse ficar plantada,
Assistir o pôr do sol e o nascer do dia
Poupar-me-ia cada tentativa desesperada
De dar sentido a uma existência tão vazia

Mas afinal, o sol sempre brilha,
Mesmo sobre troncos cortados,
Mesmo sobre as cinzas de galhos queimados
Espantando a sombra fria

Uma fagulha de esperança a nascer
Pois, mesmo um caule cortado,
Assim como um coração mutilado,
Ainda é uma árvore, capaz de florescer
Pétalas de Jade


Um adorno para os olhos
Em meio à calamidade,
Pingado em versos falhos,
Pétalas de jade

Lágrimas sinceras,
Choradas pelo humano cansaço
Que não se confunde com o fracasso
Ditado por línguas austeras

Apenas quem viveu ao lado
De um homem grandioso
Sabe muito além do que é falado,
Sobre seu trajeto honroso

Quem é capaz de salvar uma vida
Sabe, com certeza, o valor do amor
Merece mais do que a dó cedida
Na frieza dos momentos de dor

Sim, homens não choram
Não que isso seja vergonha
Por mais que a humanidade se oponha
Seus feitos não se deterioram

Não, homens não têm lágrimas
Pois é demais para sua vaidade
Apenas anjos derramam suas lastimas
Choradas em pétalas de jade
Dormindo com os Peixes


Fecharei meus olhos e dormirei
Para sempre, em sono profundo
Do qual jamais despertarei
Imersa nas águas do submundo

Entregarei minha alma ao oceano
E velarei meu corpo em sua profundidade
Não vacilarei outra vez em solo profano
Pois descansarei em liberdade

Da terra dos trovões calados,
Onde os sonhos já não importam mais
Junto ao tempo, meus sentimentos selados
Indiferentes aos reclames dos demais

Meu sangue mancha a água
E minha carcaça alimenta os animais
Bocas famintas devoram a mágoa
Presa em meus pulmões que não respiram mais

Não existe mais sol, estrelas nem céu
No jazigo das águas escuras
Tribunal, júri ou réu
No abismo das almas impuras

Não há saudade que retorne
A um coração já sem vida
Para atrapalhar quem dorme
E reabrir uma ferida

Não há remorso que atormente
Uma consciência esquecida
Nem há prece que acalente
Uma essência já perdida

Onde os mortos repousam
E os anjos não ousam
Fiz meu berço, meu lar
Um lugar para retornar

A luz se esgueira em feixes
Refletida sobre escamas
Onde não me tocam as chamas
Pois durmo junto aos peixes


A descrença destrói tudo o que espero
A loucura me induz a fazer o que não quero
Nuances mórbidas tingem de vermelho minha arte
A cada lágrima de sangue chorada da minha parte

O pecado é meu sacramentado destino,
O amor é meu doce desatino
Chaga proibida a uma alma penada
De vida vazia e sina condenada

Indigna da misericórdia divina,
Apenas vago pelo mundo, sem nenhuma missão
Rastejo sobre o pó, impregnado no chão
O tolo sentido a que minha vida se destina

Não sei por quanto tempo ainda consigo me suportar
Mas o pior é que não encontro forças para me abandonar
Perder-me em um sono eterno
E me ver livre das dores do inferno

A ninguém a não ser a meus ombros,
Pertence esse penoso fardo
Minha alma partida sob os escombros
Vislumbra a dádiva negada a um bastardo

Semente renegada da criação,
Caminha sozinha, eternamente, sem luz
Alma vazia, selada na escuridão
Por aquele que morreu na cruz

A chaga em meu corpo atesta
A sina a que estou destinada
A marca de Caim resplandece em minha testa
Denunciando minha saga amaldiçoada

Estrela macabra que nunca brilha
Pegadas de destruição marcam sua trilha
Do reino celestial, eterna desertora
Da essência divina, eterna opositora
Maníaca Depressão


Quando a mente perde a razão,
O corpo mergulha na escuridão,
O abismo parece um paraíso
Diante da vara fustigadora do juízo

A consciência deseja morrer
Ao passo que o medo o faz ficar vivo
E sentir, todo o dia, suas entranhas padecer
Preso em um transe de ódio lascivo

Renegado pela mãe liberdade,
A ira inata é sua única verdade
A cada dia, cavo minha danação,
Iludindo-me na busca por salvação

Cara manchada de vergonha e fracasso,
Ostento escondida na minha solidão,
Para que não se ria de mim cada devasso
Sedento por minha queda, minha humilhação

Ninguém a não ser eu,
Sorverá minha própria dor,
Já que ninguém se atreveu
A carregar tamanho rancor

Não ligo para o que dizem os antepassados,
Nem os presentem que me julgam
Os piores, dentre os despeitados,
São aqueles que fingem que se preocupam

Não preciso ostentar falsa modéstia,
Se na minha face está estampada minha moléstia
Nem preciso esconder de ninguém meu choro
Arte viva de onde vem meu socorro

No antro do caos e da maldade,
É cômico exigirem que eu prove minha bondade
Todos vestidos de santos, maior heresia,
Não há, do que essa, dita hipocrisia

Pronunciando o nome da justiça,
Vocês ofendem a tudo o que é justo
Insistem em manter essa mentira, a todo o custo
Sob o véu da falsa premissa

Podia eu vestir-me de apatia
Em vez disso, prefiro despir minha ira
Queria reagir, mas estou sem reação
Presa no labirinto da maníaca depressão


Versos mórbidos,
Uma canção em desprestígio,
Não uma nota de suicídio,
Mas um expurgo de dizeres sórdidos

Estou cansada de vomitar
Ao invés de falar
Ter que me calar
E todo esse ódio, regurgitar

Meus olhos cansados de choro,
Deixam que minhas veias derramem
Com a seiva bruta do meu agouro,
Poesias declamem

Ao invés de vidro na parede,
Jogo minhas vísceras no chão
Dou meu corpo para saciar a sede
No templo da profanação

Não me sinto ser devorada viva,
Pois a loucura me anestesia
Minha consciência escorre inativa
Perdida junto à minha sangria

Sinto meu estômago remoer
A tristeza mórbida que não digere
E a ira que, diariamente, ingere
Veneno do qual estou prestes a morrer

Não desejo o amor,
Pois é algo que não mereço
Com o calor do inferno, eu me aqueço
E nele forjo todo o meu rancor

Fujo aos olhos do Criador
Para não pecar ainda mais
Tranco em meu peito toda a dor
Minha alma não descansará jamais

Obrigo meu corpo a sofrer,
Impedindo que a mente esqueça
Querendo arrancar fora a cabeça,
Na esperança de que ela pare de doer

Por favor, deixe-me onde estou
Não ouse tentar me levantar do chão
Estendendo-me a mesma mão
Que me traiu e me fustigou

Para que tanta penúria,
Se no final, apodrecerei,
Consumida pela fúria,
Na qual perecerei?

Não perdi o discernimento
É que meus intestinos doem tanto,
Que não sobra espaço nem para o sentimento,
Para nada mais, além do pranto

Anseio pelo meu sono eterno
Fechar meus olhos e poder descansar
Feito uma criança embalada pelo braço materno
Quando tudo tiver fim, poderei, então, sonhar


Uma dúzia de pensamentos ruins
Antes de me deitar
Esse é meu saldo positivo dessa vida
Apenas para fazer meus inimigos sorrirem
Ao me ver chorar
Por isso, viveu essa alma ferida
Um polvo devora minhas entranhas
Seus tentáculos tomam minhas vísceras
Encerrando, por aqui, minhas façanhas
Enquanto o próprio sangue apodrece em minhas veias
Pois sua mão, sobre mim, desceu
Os anjos testemunharam
Meu céu escureceu
Foi o que meus olhos me anunciaram
O fim se aproxima,
Banhando em caos até a rima
A dor flagela esse corpo sem piedade
A mente padece o inferno da saudade
Um pé em falso,
Ansiando cair no abismo da loucura
A memória apaga a luz da minha cabeça
Deixando-me às cegas, à mercê do que apareça
Pouco faz diferença,
Manter-me sã ou entregar-me à demência
Nessa hora, não me consola nem a crença,
Nem manter acesa a chama da consciência
Cada dia que passa é cruel
Um lento escarne
A morte me envolve em seu véu
Pois já não resta coisa sã nessa carne
Possuído


Não espere o dia chegar
Pois não conseguirá mais ver
A luz do sol irradiar
Que fará seu olho arder

Não contemple a calmaria
Nem a chegada dos ventos
Não tem mais uma carne, desconhece a agonia
Seus, não são mais os pensamentos

Você está vivo mas não sabe,
Pois não tem sentimentos, ações, nem memória
Em você mesmo não cabe mais sua alma
Pois alguém comprou a sua história

E nunca lembrará quando, onde,
Ou para quem vendeu
Não cabe mais a você, aonde,
Você vai, onde sua consciência se perdeu

É tarde demais para chorar,
Pois suas, não são mais as lágrimas
Tentará, em vão, gritar,
Mas aqueles que traiu, não ouvirão suas lástimas

Não soube conduzir a sua vida,
Por isso, entregou-a nas mãos de um mentor
Esperou que ele mostrasse a verdade não compreendida
De que o ser humano nasceu para a dor

Sofrer é a condição de viver
Mas você preferiu vender esse fardo
O único motivo pelo qual morrer
Deu sua única riqueza a um bastardo

Confiou nos amigos,
Que lhe chutaram o rabo
Vivendo felizes em seus jazigos,
Rezam a Deus mas adoram ao Diabo

Não têm alma, credo, rebanho condenado
Não têm um lado, a não ser, o que vence
E depois de traído, você se convence
De que a vida é honra demais a um fracassado

Dê sua vida a quem melhor pode aproveitar
Pois esperou Deus lhe fazer justiça, mas ele não veio
Agora, só resta, sua alma, entregar
Àquele sujeito medonho, feio

Pai dos desgraçados,
Mãe dos desprezados e desprezíveis
Da terra dos trovões calados
Ecoa o grito de suas crianças horríveis

Um mundo tão condenado,
Mas o único que o acolhe
De onde você sempre será negado
Nem seu cadáver miserável, a luz recolhe

Não há saída para o que está perdido
Nem há cura para quem é adoecido
Não há paciência para quem está caído
Por isso, deixei de ser esquecido e virei um possuído
Momentos Antes de Partir


O projétil rancor fura minha cabeça,
Rouba-me os pensamentos antes que eu me esqueça
A náusea que, meu estômago, castiga
A vida, em meus ossos, instiga

A dor é o flagelo da existência
Assim como a fuga do homem é a ciência
A doença é a vara na mão materna
Em minha alma, a ira é eterna

A insônia insiste em me despertar
Deixando a mente à mercê da loucura
A boca põe-se a espraguejar
Enquanto a carne amarga a chaga sem cura

A morte se impõe a mim
Como a outros se impôs a cruz
Um anjo sorri profetizando meu fim
Enquanto sofro a penúria a que fiz jus

Uma oração, ora, por desespero,
Ora, por um pingo de esperança,
Versos imploram a salvação do desterro
Não consolam, nem desolam a confiança

Em que se apegar quando o fim está perto?
Na oração, na inspiração, creio que em tudo, um pouco
Toda a noite, desapego-me pouco a pouco
E toda a manhã dou graças a Deus quando desperto

Tudo bem que a vida não é como queremos,
Que a morte, muitos de nós, tememos
Embora sei que minha vontade não me livrará,
No sepulcro, quem Te louvará?

Minha alma está cheia de vida
Embora minha carne se descora
Repousa minha mente ungida
Meu coração me diz que está na hora

Dizem que a morte é uma transição,
Um transe infinito de paz
Para mim, diferença nenhuma faz
Vazio na terra, do outro lado, solidão

Não sei se temo morrer,
Ou no fundo, gosto demais de viver
Sinto que ainda tenho muito a fazer
Embora meu corpo esteja a perecer
Príncipe de Jade


Minhas lágrimas já escorrem tarde
O triste amargo da sua partida
Meu peito sangra a dor da sua despedida
Vá-se em paz, meu príncipe de jade

A mente se afunda nas lembranças
Ao passo que se desnuda das esperanças
Sua imagem passando feito filme
O coração desmorona sobre pés firmes

Da janela,
Suas pegadas somem no horizonte
De todas as pedras, a mais bela
Dos mais insanos prazeres, divina fonte

Jade, entre tantas belezas, esplendorosa
Entre todas as pedras, a mais preciosa
Entre todas as cores, a mais graciosa
Seus olhos, de todas as jóias, as mais valiosas

Jade, cor da viva cura
Embriaga-me o sono, trafega-me a loucura
Verde, cor da profana luxúria
Apaga o vermelho da intensa fúria

Para cantar-te nunca é tarde,
Embora, tarde, fui ver-te partir
Turquesa, esmeralda, o que haveria de preferir,
Se não fosses tu, soberana jade?

Em meus sonhos, velarei seus caminhos
Seguirei suas pegadas entre os espinhos
De olhos fechados em meu leito sacramentado
Estarei te esperando, meu anjo amado
Mulher-Lagarto


Pode me quebrar, querido
Quantas vezes for
Recolho meu orgulho partido
E renasço da minha dor

Às risadas que ferem meu ego,
Agradeço com minha regeneração
Pois à batalha não fujo, não me entrego
Alheio despeito louva minha ascensão

Minhas lágrimas correm,
Mas, por favor, não se engane
Elas não choram, mas corroem
Não notará até que sua pele inflame

Meu riso não se deleita,
Mas exala minha ira
Assim como seu olhar enfeita
A crueldade que, a mim, você atira

Com um cínico sorriso,
Retribuo cada ferida que me cria
Desculpe se o desaponto e não me atemorizo
Pois meu corpo tem escamas e minha pele é fria

Troco de pele como quem troca de roupa
Jeito interessante de sobreviver,
Para as espécies a quem a vida não poupa
E a ingenuidade condena a perecer

De longe sinto o fedor
Da podridão do seu caráter
Que a minha carne traduz em pavor
Sentimentos tão cálidos quanto um cadáver

Mas não pense que não tinha te visto
Aquele seu sorriso nunca me enganou
Calada, apenas contemplo e assisto
O circo que, perante mim, você armou

Não pense que os anos apenas me deram rugas
E não me deram nenhum aprendizado
Sobre essas impertinentes pulgas,
Que, do meu sangue, têm se alimentado

Muito fácil eu poderia esmagá-lo
Mais fácil ainda, eu poderia tragá-lo
Mas prefiro poupar minha vitalidade,
Não vim ao mundo satisfazer os caprichos da sua vaidade

Vá dormir, minha tola criança
Enquanto isso, permaneço bem acordada
Esperando tropeçares em sua autoconfiança
Aguardando, ansiosa, a menor resvalada

Seu olhar é persuasivo,
Seu sorriso é traiçoeiro
Mas no seu lugar, eu ficaria apreensivo
Pois meu bote é certeiro...
Autoflagelo


Moinhos de vento giram em meu estômago
Giram, giram tanto que me dão enjôo
A despeito do incômodo em meu ventre sôfrego,
Abro minhas asas, sem alçar nenhum vôo

Encolho-me na minha cama,
Oprimida por minha minuscalia
Ignoro a vida, fora de casa, que me chama
Maquiando de prudência, minha covardia

Autoflagelo, pior do que cortar a pele
Essa sina que me cerca e me norteia
A verdade que minha consciência tanto repele
Essa loucura de amar quem tanto me odeia

Contradição, temer tanto a morte,
Se não tenho respeito por minha vida
Planto meu sofrimento, jogo fora minha sorte
Cubro de trevas, minha consciência reprimida

Não quero nada mais para minha existência
E o que haveria de querer?
Alguém de dias contados, prestes a morrer
De que me valeria tão inútil insistência?

Apenas me deixe continuar pequena
Até a morte dizer chega e me ceifar
Varrer-me desse mundo que a praga humana envenena
Pois estou farta de tanto remar e naufragar

Nunca fui digna de nascer,
Como não sou digna de viver
Minhas entranhas testemunham essa triste verdade
Minha boca se cala diante à cruel realidade

Minha inércia me mantém amarrada,
Pois se me mexo, eu me maltrato
Meu sadismo me faz condenada
Nele me redimo e me destrato

Tristeza mórbida mantém meus olhos abertos
O pessimismo torna meus medos certos
Caio aos prantos, aos pés do sacristão
Chicoteando minhas costas, implorando por perdão
Melancolias e Alguns Versos VI


A tormenta apenas aumenta
A agonia dessa alma
Cujo ódio, no sangue, fermenta
Para cuja dor, não há calma

Não há sangue que sacie
Uma garganta seca e ferida
Nada mais que amacie
Um coração onde não há vida

Olhos vazios e viscerais
Vagam pelo inferno,
Onde perecem os mortais
Em seu tormento eterno

Destino selado,
Por almas vendidas
Mundo desolado,
Por mentes corrompidas

O reinado do filho do homem
Está próximo, prevêem as escrituras
No pecado, os filhos da sujeira se consomem
Entregando-se às mundanas loucuras

Falsos profetas distorcem o que se vê,
Falsa ciência reinventa o que se lê
Crueldade e luxúria banham a terra pagã,
Onde regozijam os filhos de Leviatã

Meus rins me falam de dia,
De noite, meu estômago lamenta
Por esta alma perdida e vazia
Que somente a solidão acalenta

Buscar consolo nas trevas,
Quando até a escuridão é cruel
Todo o dia, partem as levas
De almas destinadas ao banco dos réus

Falar de esperança,
É uma bela maneira
De ocultar a tristeza derradeira
Quando, em si próprio, não há confiança

O desespero bem que tenta me torturar
Dizendo-me que estou no fim da vida
Meus órgãos, inquietos, declaram-me sem saída
Fecho meus olhos e deixo o sono pairar
Poesia do Abismo


Não derramem lágrimas,
Debruçados sobre meus ossos,
Poupem suas lástimas,
Deixem a chuva levar meus destroços

Não mais temo tanto morrer,
Se junto com a vida,
Também termina o sofrer
De uma existência comprimida

Tendo que sorrir para não chorar,
Sentir toda a dor, sem nunca me queixar
Uma bendita lágrima, antes de me deitar
É todo o legado que, aqui, irei deixar

Por que ser falsa,
Esconder minha indignação,
Se o alheio ganido soa feito valsa
Para estas almas perdidas na escuridão?

A sinfonia maldita,
Entoando o sadismo,
Que nesse mundo habita,
É viva fúria, poesia do abismo

Soa por cada vértebra do meu corpo
Ecoando por cada janela
Desse espírito frágil e quase morto
E toda essa crueldade, deixando tão bela

Uma beleza que tão fácil não se explica
Nesse mundo reina, feito praga, que se replica
Tornando até inocente o disparate
De chamar tamanha loucura de arte
Melancolias e Alguns Versos V


Serpentes saem da minha garganta
Por mais que eu reze, nada adianta
Quando a razão se esconde e o ódio se levanta
Pupilas dilatam e a ira comanda

As mãos anseiam pelo som de fraturas,
Dos ossos corruptos, indignas criaturas
Queimem no inferno, línguas enganadoras
Calem-se nas chamas, bocas pecadoras

Não pronunciem o nome do Criador,
Aqueles que não são dignos da sua pureza
A si próprio engana-se, falso adorador
Olhos de serpente delatam sua natureza

Falsos profetas, sobre falsos pilares,
Enganam almas e mentes fracas
Purgará no pecado tudo quanto falares
Como sangra a carne, por afiadas facas

Da mão do arcanjo, ergue-se a espada
A mão direita que faz a verdadeira justiça
Rasteja a seus pés, a linhagem condenada
Choram lágrimas de sangue, os olhos de cobiça

Para a humanidade, não resta nenhuma prece
A loucura nos olhos, a cada dia, resplandece
Enquanto a alma, pela boca, desaparece
E a fé, na mente, apodrece

É isso que se ganha por carregar a cruz
Flagelar um corpo inocente,
Com o fardo a que a humanidade faz jus,
Rindo-se de sua dor e fingindo-se de crente

E o inferno também dá um sorriso
Com um beijo no rosto e um abraço apertado
Como o suborno de Judas, o pecado revelado
O tesouro da besta, seu último riso
Pensamentos à Noite


Mais um dia a minguar,
Apenas fecho meus olhos, sem me queixar
O sol se recolhe em sua modéstia,
Enquanto os grilos cantam minha moléstia
A escuridão, sobre a terra, vem pairando
Abrindo caminho para a noite que vem chegando
Com a noite, muitas coisas também vêm
Pensamentos, sentimentos, e outros mistérios do além
Afaga, apaga o dia que passou
Alivia, resfria a dor que ficou
Minha alma inquieta se debate em meu corpo
O silêncio é, para a mente, um estorvo,
Feito a lâmina que flagela a arte
E o fogo que, na pele, arde
Fiéis declamam, em preces, seus pedidos
Insanos a verem elefantes coloridos
Tudo, o gigante universo
Com o amargo da língua, verso
Meus olhos de insônia nunca repousam
Remorsos, em meu travesseiro, pousam
Feito abutres ansiosos por minha carcaça
Por meu canto funesto, ode à desgraça
Eis que assim fui criada
Essa é minha natureza forjada
Na ponta da língua está minha amargura
Uma pitada de veneno e outra de loucura
A noite está a clamar
A mente pesada põe-se a versar
Feito um corpo inquieto a bailar
Sem nenhuma música para dançar
A noite tem pressa,
Pois a inspiração passa bem depressa
As mãos furiosas mancham o papel
Feito as estrelas violando o escuro do céu
Registram as peripécias ditadas pela mente
Dando à luz a palavra, repentinamente
E assim pensamentos criam vida,
Contam, remontam a história vivida
Pelas janelas da alma se propagam
E de lábios em lábios vagam,
Por onde cães inquietos louvam a lua
E quando menos se percebe, invadem a rua
Ódio


Sussurros da morte me brotam do estômago
A fúria me abre as veias
Derramando o sangue quente,
Seiva do meu ego
A chaga que, na pele, arde
Parece bela, soa feito arte
A boca que tece injúrias,
Criadora de toda a insanidade
De todo o caos, desse antro de maldade
Não quero seu mal
Mas nem de longe, quero seu bem
Não me entenda mal
Mas o ódio volta a quem o tem
A árvore da vida não floresce,
Regada a raiva e sangue
Seus galhos apodrecidos a caírem no chão,
Como cai seu espírito, mergulhado na devassidão
Seu sorriso sádico,
Rindo daqueles que choram
Seu olhar cético,
Não crê naqueles que oram
Por isso, peço que não me julgues
Se nada sinto pelos mortais que me cercam
Não me culpes,
Por praticar o que me ensinaste
Aprendi tanto com você
A suportar todo o tipo de crueldade
Onde foi parar minha humanidade,
Que não consegue tolerar a bondade?
Melancolias e Alguns Versos IV


Minha tristeza me toma
Do meu pensamento, meu sentimento, se adona
Engolindo a doçura que resta em mim
Dor e silêncio é tudo o que sobra no fim

O veneno a pingar no olhar,
A ira que corre no sangue,
Tortura minha mente, persegue
Contemplando minha alma a definhar

A piedade dos homens bem que engana,
Sob a falsa máscara da amizade
Nos olhos, a cobiça, na mente, a gana
Pois aqui, não há beleza sem crueldade

Lobos famintos farejam a fraqueza,
Corvos estáticos contemplam a frieza
Aqui não há tempo para misericórdia ou compaixão
Para o fracasso, não há paciência ou perdão

Mate minha fome, estou a suplicar
Mate minha sede, estou a ofegar
A insônia abre as portas para a loucura,
Deixando, à mercê do diabo, a criatura

Toda a noite peço perdão,
Encurralada pela vergonha, no fim
Quisera eu ser salva pela minha devoção
Mas meu pecado sempre se coloca diante de mim

Pelo meu ventre, a morte a falar
Pelo meu esôfago, dor a expurgar
Na cama se contorce minha carne lastimada
Aos céus, implora minha alma condenada

Os anjos velam meu perecer
Silenciosos, pois não há o que fazer
Por mais que seja inútil resistir
Brota de dentro aquele medo de partir


Meu ventre está sangrando, meu amor
Suas flechas cravaram fundo em mim
Misturado à minha seiva, escorre o rancor
Que banha todo esse abismo sem fim

Você tirou a vida do meu corpo,
Levou embora a luz dos meus olhos
Corroeu meu espírito, sem remorsos
Sua paixão foi meu maior agouro

Não de mim, virá sua condenação
Mas por favor, não morra esperando meu perdão
Minha ira está lançada sobre esse mundo mortal
Tragá-lo-á feito uma peste letal

Os anos que roubaste da minha vida,
Em cada lágrima a escorrer do seu rosto,
Cobrarei essa preciosa dívida
Que há de me pagar por cada desgosto

Já implorei a meus olhos
Pararem de sangrar por ti
Já reuni os retalhos
Dessa alma despedaçada por ti

Não tenho mais orgulho,
Nem sou capaz de me envergonhar
Se a seus pés me jogo e me debulho
Pois sem você, não sou capaz de sonhar

Diga-me, como consigo deixar de te amar
E desta triste sina me libertar,
Sem que eu pare de respirar
E nesse corpo não haja mais alma?
Fantasiando com um Homem Morto


Nunca o conheci
Você já estava morto
Já haviam recolhido seu corpo
Quando, nas páginas policiais, eu o vi

Seu rosto era tão doce, sereno
Um semblante de pureza impecável
Ao que se sabe, um amante implacável
De vida intensa e destino nada ameno

Você me tocou
Aí do seu lugar sobrenatural
Na minha insignificância imortal
Ascendeu minha alma e me acordou

Quisera eu ter sido
Uma de suas meretrizes
Em seus braços ter me perdido
Tornando-o a mais profunda das minhas cicatrizes

Você partiu antes
De que eu pudesse acariciar seu rosto,
Sentindo, em meus lábios, seu gosto
Em meus ouvidos, seu gemidos delirantes

Antes que eu pudesse tê-lo entregue
Ao meu pecado, à minha sede, à minha alma
Agora seu fantasma me tortura e me persegue
Ao passo que fantasiar com você me acalma

Onde está você agora,
Meu pecado secreto, meu quase amor?
Que me faz retomar, pela vida, o rancor
De passar a desejá-lo toda a hora

Por que se ri de mim, aí na eternidade?
Deliciando-se com a minha solidão,
Presa à minha própria mediocridade,
Desperdiçando versos tolos em vão

Tolo, meu querido, sinto
Em dizer que foi você de ter partido
Deixando meu espírito só e perdido
Por você, sedento e por seu sangue, faminto

Só mesmo a imaginação,
Mãe da arte, musa da criação
Alivia-me a dor de não ter estado com você
Ferida que arde e o pior é que se vê

Mais que isso, eu quero ver!
Construí para você um paraíso
Na minha mente, onde nunca irá perecer
Fico com você e abro mão do meu juízo

É o amor, para quem vaga na solidão,
A água para o deserto, a terra prometida,
A clemência aos condenados à escuridão,
A esperança da promessa não cumprida

Como é você para mim, meu quase amor,
Agora, em meus versos, eternizado
Impregnado em meu clamor
Por um sonho não realizado
Passagem


Queria ao menos
Que estivesse aqui para me ouvir
Afagar-me os cabelos, pelo menos,
Até eu conseguir fechar meus olhos e dormir

Mas como poderia,
Se nunca vi seu rosto?
Mal sabe o quanto me contentaria
No fim da vida, poder ter esse gosto

Será por isso que estou terminando?
Você espera por mim no paraíso?
Distante, sonho com sua voz me chamando
Confiante, espero poder ver de perto seu sorriso

Meus inimigos ladram aqui na terra
Enquanto velo, em silêncio, sobre meu leito
Sucumbindo à doença que me enterra,
Inerte, com as mãos cruzadas sobre o meu peito

Uma gota de saliva
Escorre pela boca dos pecadores
Saboreiam meu sangue, seiva viva
Servindo-se das minhas dores

Sinto minha cabeça ser esmagada
A dor contradiz a paz em meu semblante
Minha memória está prestes a ser apagada
Junto à vida em meu corpo, a cada instante

Apenas você, do alto da sua pureza,
Agora é quem me redime e me conforta
Protegendo-me do mundo que me reprime e me aborta
Dando, a esse caos, até um ar de beleza

Que façam bom proveito
Os abutres de plantão, da minha carcaça
A violarem meu corpo desfeito,
De alma vazia e vida escassa

Ao escuro, o barqueiro me lança
Velejo ao seu encontro, rumo ao desconhecido
Não sei se poderei chamar de amor esse acontecido
Mas, por hora, basta-me chamá-lo de esperança
Melancolias e Alguns Versos III


O pecado sempre diante de mim,
Ofendendo minha crença,
Consumindo-me feito doença,
Esse louco desprezo que sinto por mim

Os anos a morrer,
Em meu rosto, a se desfazer
A beleza que nunca mereci
Leva consigo a vida que nunca agradeci

Frio e silêncio guiam a noite
Meus olhos vagam sozinhos na escuridão
Minha carne lastimada ao açoite
Cuja alma perde-se na imensidão

O sangue rega a terra
Que o sol tanto castiga
Libertando a fera
Que o homem tanto instiga

Até penso em me levantar,
Mas a inércia não me deixa fazer
Não deixa a boca lamentar
Mas nunca cala essa vontade de morrer

Com o rosto banhado a egoísmo
E meu corpo vestido de apatia
Velo quieta minha eterna agonia
Presa nesse meu transe de pessimismo

Não me importo com esse mundo a terminar,
Nem com cada mortal, aqui, a perecer
Toda a dor que o homem fez por merecer
Quando deixou sua alma apodrecer

Perdida a flor da idade
E com ela, a inocência da mocidade
Já vejo o fim do túnel, a morte a chamar
Sobre os portões do inferno, a me esperar

As chamas ansiosas por minha carne manchada
Por apagar da vida minha alma condenada
Minha boca, fechada, sabe que não adianta implorar
Pois uma vez no inferno, só o diabo pode te ajudar
Transe de Ódio


Um transe de ódio me embriaga a mente
Sufoca-me o peito
Feito o abraço da serpente
Abala a razão, como gelo liquefeito
Almas penadas expurgam seu carma
Seus gritos ecoam de dentro do meu estômago
O pecado, nesse corpo, encarna
Chamas dançantes emergem do meu esôfago
A dor quase me faz retroceder
Mas a ira é tanta, que não consigo suportar
Por mais que a consciência faça me arrepender
Esse ódio acabará por me matar
A cólera nunca me deixa sossegar
A insônia põe a mente desperta, neurótica
Cada dia em vão, a morte a me afagar
O maior alento da minha vida caótica
O veneno em meus olhos, sinto-me cegar
O rancor em meu peito, minha boca a cantar
A tristeza da alma, o corpo a pagar
As trevas da mente, o fogo a levantar
Arde, escurece a vida, não é de se espantar
Aqui estou versando meu pecado
Meu espírito imóvel, parado no tempo
Nesse transe de ódio, congelado
Por alguma razão que nem eu entendo
Enterrada viva, presa ao passado,
Não adianta orar por mim
Enquanto estiver aqui, nunca irei descansar
Meu amigo já levanta contra mim seu calcanhar
Lobos famintos põem-se a espreitar
Meu suplício, meu calvário, meu triste fim
Calvário


Vida, pelos meus olhos, escorre
Tira de mim minha ira, minha fome
Na loucura, criatura morre
Sem passado, sem história, sem nome
Condenada a vagar na escuridão
Longe da graça, do poder da Criação
Mente aleijada, boca encerrada
Pois tudo se foi, em mim não há nada

A misericórdia divina,
Que nesse reino não habita
A seta sangra a carne, a peste germina
A terra apodrece, o mundo grita
Pois o legado de Satã agora domina
Sugando-lhe o sangue, a humanidade, debilita
Não ouse entrar, minha mente está fechada
Não há esperança, aqui não há nada

Consumido no pecado,
O homem lança ao fogo sua salvação
Por sua própria corrupção, foi devorado
Ao abismo, lançado por sua própria mão
O gozo do ímpio, o justo crucificado
Mundo condenado, irmão mata irmão
Não insista, minha face está vendada
Com o manto da loucura, não posso ver nada

Vísceras e sangue adornam este chão
Por onde os mortos caminham
No inferno, não há descanso, concessão
Ou preces àqueles que definham
A música da noite, o cheiro da podridão
Meus ossos perecem em sua maldição
Condenada a esse cárcere mortuário,
De olhos fechados, velo meu calvário
Abandono


A cruel leveza
Refletindo, na alma, a frieza
De uma história que já se foi
Mas na memória, ainda dói
Sonhos que nunca mais se realizarão
Destinos que nunca mais se encontrarão
Por trás da face, uma alma vazia
Um coração repleto de ira e agonia

Palavras adornadas em ouro,
Jogadas ao vento por lábios enganosos
Que carregam em si o profano agouro
Espalhado sobre a terra pelos homens mentirosos
Sorvo minha culpa, e nela, morro
Sejam testemunhas meus versos rancorosos
Gano pelas ruas feito um cão sem dono
Amargando minha chaga, a praga do abandono

Confiei em mim mesmo
E assim mesmo, fui traída
Minha inocência foi roubada,
Minha honra foi consumida
Por trás dessa carne violada,
Chora minha alma destruída
Cada lágrima, uma gota de esperança
A se esvair por esses olhos sedentos de vingança

Orar para o Criador
Clamando por justiça
Aplacar, dessa alma, a dor
Quando a solidão é a única premissa
Aos poucos, o amor dá lugar ao rancor
Surgindo, então, o ódio, a maior cobiça
O sangue de um coração quebrantado
Redime a pureza de um espírito enganado

Uma lágrima de sangue corre
De um olho vazio, um rosto desolado
Nem toda a piedade do mundo socorre
A dor de quem se entregou e foi usado
A poeira dos seus sapatos cobre
O rastro de vergonha, por você, deixado
Abandono, essa verdade sombria e má
Para o amor, pior traição não há
Melancolias e Alguns Versos II


Minha alma se debate em meu corpo,
Por mais que meus olhos estejam pesados
A culpa corrói meu estômago,
Trazendo a chaga dos pesares passados

Pergunto-me quando acordarei
Desse pesadelo que me entorpece
Algum dia, espero, despertarei
Para a vida que a minha mente esquece

Sem esperança, sem um sentido
Continuo andando, ainda respirando
Sem fé, mas com um destino
À toa, estou vagando

O horizonte não é infinito
Pois inicia na vida e, ao longo da jornada,
Termina no nada
Nada se vê em meu olhar aflito

No chão, marcas deixadas
Gotas de sangue e pegadas
Eram para ser lágrimas, mas secaram
Os anos as enterraram

Os sonhos não passam de vãs lembranças
De quem, algum dia, teve esperanças
Um rosto mórbido a mirar o fim
Da miserável vida confiada a mim

De nada adianta protestar
Injustiça ou não
Há quem não foi feito para brilhar
São apenas rostos a perderem-se na imensidão

Por aqui, passam
Mas aqui, pouco deixam
Por mais que façam,
Suas marcas não se queixam

Vã existência
Consome a juventude
O sono e a paciência
Na ilusão de uma plenitude

Um dia após outro
Comprimidos e mais comprimidos
Boca adentro,
Sustentando meus ossos sofridos

Abro um sorriso a esconder que estou sofrendo
A noite passando, sozinha, murmurando
Letárgica, sigo rezando
E a música segue tocando enquanto vou morrendo
Cicatriz


Na carne, crava o espinho
Da dor que atravessa os ossos, definho
O pranto dá boas vindas ao meu castigo
Aos pés da vida, com lágrimas, mendigo
Não se teme, na decadência, arder
Quando nada, mais nada, tem-se a perder
As flores do jardim encontram-se ressecadas
Seu perfume evanesceu, suas cores são desbotadas
A rosa branca está morrendo de tanta tristeza
De seus botões esvaem suas pétalas e sua beleza
Não adiantou na escuridão me refugiar
Pois a desgraça, em minha casa, foi me buscar
Sem forças caí, em angústia me rendi
No chão, em desespero, pedi
Mas minha súplica ofegante não foi ouvida
Do meu choro, do meu soluço, não teve pena a vida
Duas vezes caí
Duas vezes pedi
Duas vezes chorei
Duas vezes sangrei
De seu vôo gracioso caiu o beija-flor
Seu corpo pálido, padecendo de dó e dor
As raízes e o verde, perdeu o gramado
O solo é agora, seco, estéril e arrasado
E eu que vivia a versar em meus campos coloridos
Ando agora no deserto, em seus rumos áridos e feridos
Sei que não adianta gritar, por isso, ando calada
Às vezes penso ver cores, mas é apenas paisagem desbotada
O sol, do alvo céu, sorri seu sorriso incandescente
E eu também extraio um sorriso da minha face doente
Não sei como, por quê, nem até quando,
Mas sei que preciso continuar andando
A lua vela o sono da sua filha, em seu esplendor
Seus olhos a iluminam, enquanto ela dorme nas trevas e na dor
Desde a minha origem, vivo como se já tivesse vivido
Minha vida não passa de um filme mudo e repetido
Por isso, não sei se temo o infortúnio ou o glorifico
Às vezes, até alegre com sua presença, eu fico
Muito, pelo inferno, vaguei
Muito, à beira da loucura, sozinha, fiquei
Muito perdi,
Muito adoeci,
Muito chorei,
Muito sangrei
E mesmo assim, muito à vida, agradeço
Dela não guardo rancores, com ela, não me aborreço
Pois antes de me presentear com sua cilada
Em muito ela já me fez realizada
Antes de me fazer chorar,
Antes de me fazer sangrar,
Muito ela me ensinou,
Muito, devo a ela o que sou
Muito, por campos cheirosos e floridos, andei
Muito, seus aromas e sua beleza, cantei
Tempo que hoje lembro-me com saudade
Relíquia que a vida me deu, carregarei à eternidade
Graças a ela, por um momento, fui feliz
Dela, carrego sua marca, minha doce cicatriz
Melancolias e Alguns Versos I


No céu, estrelas desabam
Sobre o rebanho de condenados
Onde os mortos vagam
Quebrando os ossos, aqui, deixados

Meus olhos esbugalhados,
Estúpidos, a mirar
Meus pés estagnados
Testemunham a ceifa se aproximar

Deus tem piedade,
Mas a morte tem pressa
Perda de tempo é a saudade
Por isso, o homem a despreza

Relíquia de um tempo passado
Onde a humanidade era temente
Matar-se para não ser devorado
E sobreviver de consciência ausente

Um espírito vazio,
Em um corpo profanado
Pois os homens roubam o brio
Neste antro condenado

A chaga na pele
Expõe a carne crua
O pecado reflete
Minha essência nua

O sangue escorre,
Mas não lava a honra manchada
Nem revive a pureza que morre
A cada dia, nessa mente desgarrada

Alma fadada
Ao vitupério do pecado
Cujos sonhos jazem no passado
De uma lembrança apagada

Os olhos já não brilham mais
Feito estrelas decadentes,
Exibirão sua graça jamais
Na escura alma dos descrentes

Morrer nesse deserto,
Ansiando por minha salvação
Esse é meu destino certo
Calo-me e aceito minha danação

Doce esperança,
Nesse mundo de caos e dor
Tola perseverança
Nessa falácia dita amor

Queria apenas poder me deixar dormir
Fechar meus olhos em meu leito
Poupar-me de lamentos quando me deito
Um último instante antes de partir

Cansada de esperar perdão,
Sigo descalça sobre a poeira
Ao pó retorno, unindo-me à sujeira
Que infesta as ruínas da Criação
A Mariposa


O destino é um caso sério
A vida, pura questão de mistério
Uma borboleta completa sua mudança
Mas ainda vive a pequena lagarta sem confiança
Tem asas, mas não consegue voar
Não tem mais lágrimas, mas ainda consegue chorar
Não tem paradeiro
O juízo, com ela, será traiçoeiro
Pequena borboleta, ninfa doce
Quem dera se, assim como vista, fosse
Uma pequena menina,
Cujo veneno, no peito, germina
Olhos moles, rosto inocente
Por dentro, uma meretriz ardente
Se estiver com ela, jamais imaginará
O quanto ela é perversa, sórdida e má
Ares doce, essência rancorosa
Sentada no jardim, a mariposa venenosa
Ela está farta de viver, quer sua salvação
Ela está farta de ser a face da corrupção
Ela ainda espera, lagarta veneno, tornar-se madura
Ela ainda espera se redimir em uma alma pura
Ela escolheu você, menino, para ser seu mentor
Mas cuidado, menino, sua picada lhe trará a dor
Ela urra, ela chora, ela ri, ela diz que sente
Pequena diaba, rouba, mata, engana, mente
Use-a, moleste-a, leve-a para a cama
Depois corra dela, pois ela nunca ama
Ela é uma venenosa mariposa
Fique longe dela, do diabo, ela é esposa
Borboletas e ninfas, do néctar, alimentam-se
Mas ela se alimenta do sangue dos que, a ela, entregam-se
Corra menino, saia do caminho dela!
Dolorosa é a picada, a face não é nada bela
Como todas as flores do inferno, sempre graciosa
Sempre contente, sorridente, carinhosa
Mas não muito sua alegria durará
Seu coração, a lâmina afiada dela pegará
Salve-se menino e dê a ela a salvação
Ponha a cadela no seu lugar, a escuridão
Ela comerá sua carne, sugará seu sangue até definhar
Cuidado menino, o amor dela te quer matar...
Cantos de Miséria


Desespero-me a pintar flores
Enquanto contemplo minha miséria
Cubro em negro véu minhas dores
Ri a loucura sob a minha face séria

Silêncio:
Almas serão ceifadas
Para que outras,
Em fino vinho sangue,
Sejam perdoadas

Não mais tenho o que pensar,
Não mais tenho o que temer
O que mais posso pagar,
Por estar cansada de tremer?

Onde estão os outros,
Para onde haveriam de ir?
Será que caíram mortos,
Ou se cansaram de aplaudir?

A dor alheia,
Das janelas do mausoléu
É uma diversão verdadeira
Em ossos alheios, esculpir troféu

Desfilam os colossos
Em palcos de vísceras
E ganem os ratos nos fossos
E no inferno, almas míseras

Em baixo tom confesso,
Derramando sangue,
Por falta de lágrimas, verso:

“Cantos de miséria
choram retalhos de memória
Miúdos calados de alma
Contam minha história”

Desejo eu o pecado da carne
E também a ressurreição
Entregaria-me ao escarne
Por um pouco de compaixão

Desejo estar morta,
Ao passo que choro meu cadáver
Lamenta minha pele torta
Os anos terem sugado o meu viver

Demônios, à noite,
Vêm-me falar
Já que os vivos, ao açoite,
Fazem-me calar

Deixo minha alma de presente,
Para quem dela, quiser abusar
Despeço-me solenemente
E continuo a versar:

“Cantos de miséria
choram retalhos de memória
Miúdos calados de alma
contam minha história”

Fecho meus olhos,
Enquanto as trevas não me vêm levar
Abrem-se meus lábios velhos
Enquanto sentem a morte entrar

Cessam as estrelas no céu
E os cortes entalhados
Cala-se a música do mausoléu
E nos meus lábios, os sorrisos forçados

Não mais preciso fingir
Para viver uma mentira
Não mais preciso sorrir
E esconder do mundo minha ira

Qual é o prêmio que levaremos
Por viver uma vida que não vive
Por que nos calaremos,
Diante à sina de sermos livres?

Para mim, não faz diferença
Ignorar ou, simplesmente, calar
Em mim, morreu minha crença
Pois meu anjo não vem mais cantar:

“Cantos de miséria
choram retalhos de memória
Miúdos calados de alma
Contam minha história”

Assim como contam
Meus restos espalhados
Assim como montam
Meus pedaços deixados

Minha trilha,
Minha vida na escória
Minha ira,
Minha inútil glória
Canto de Saudade


Quando voltas, moço?
É o que vim saber
Sentada, olho o céu
Pergunto às estrelas,
Diante delas, feito réu
Minhas lágrimas ao vê-las
Supondo o que tens a me dizer

Quando voltas, moço?
Por favor, mande me informar
Não agüento mais suspirar
Deitada, feito quem espera a morte,
Ferida pelo profundo corte,
Sofro sem piedade
Da moléstia dita saudade

Quando voltas, moço?
Não me canso de perguntar
Ainda que, em vão,
Preciso lutar
Não aceita o coração
Abandonar sua escravidão
E ver-se livre do fardo de amar

Quando voltas, moço?
Não me deixe a esperar
Entre um ou outro suspiro,
O destino pode me guiar
O mundo dar mais um giro
E o amor que hoje miro
No coração se afogar

Quando voltas, moço?
Entre lágrimas e sonho,
Indagando a lua
A orar me ponho
Implorando a carne crua
Que atravesse meu sonho
E tome essa alma sempre tua

Quando voltas, moço?
Preciso saber
Não que eu vá morrer,
Mas a vida tem mais graça
Quando, nela, estás presente
Anestesia-me a desgraça
Sentir seu hálito quente

Quando voltas, moço?
Creio que nunca saberei
Mas algo é certo:
Aqui sempre estarei
Para sentir tu por perto
Tua lembrança me aquece
O coração nunca esquece

Quando voltas, moço?
Esse será meu castigo
Por não dedicar valor
A cada segundo contigo
Agora, vivo nas trevas e na dor
A restos de sonhos, mendigo
Que te tragam de volta, meu amor
Chora Menina


Chora menina,
chora no seu quarto escuro
Entre a angústia que aperta
e a morte que é certa
Nada é a escuridão
para quem é filho da solidão

Chora menina,
chora no seu quarto escuro
O que temer desse mistério,
confinada em um cemitério
Se apenas os mortos a ouvem chorar
e Deus não te ouve orar

Chora menina,
chora no seu quarto escuro
De nada nos adianta odiar
quando já nos foram matar
Assim que inútil é gritar,
a saída é escondida chorar

Chora menina,
chora no seu quarto escuro
Espere que um dia hão de se compadecer
aqueles que tu deixas te bater
Espere que olhe a um oprimido
outros olhos refletindo caráter destruído

Chora menina,
chora no seu quarto escuro
Permita-me ceder meu lenço,
pois lágrimas, há muito, dispenso
Não faço da vergonha meu véu
nem da minha dor, alheio troféu

Chora menina,
chora no seu quarto escuro
Chora a inocência perdida,
chora sua alma vendida
Chora a dádiva jamais concebida
pois o amor na sua vida é chaga proibida

Chora menina,
chora no seu quarto escuro
Caia a lágrima que dignifica
derrame o sangue que purifica
Feche os olhos, entregue-se boa irmã
Regozije no inferno, princesa de Satã

Chora menina,
chora no seu quarto escuro
Mas antes de se afogar em sua sangria,
antes de apodrecer sua carne doentia
Peço que não tente por mim chorar
a beleza que a vida me foi roubar

Chora menina,
chora no seu quarto escuro
Até que um dia ouçam seu sussurro
nunca irá querer ver seu futuro
Antes seu rosto esconder
do que no inferno da consciência arder

Chora menina,
se ainda te restam lágrimas para chorar
Se ainda há algum dejeto a derramar
se ainda há sangue para jorrar
Há uma alma para trocar,
se ainda espera se salvar
Canção do Meu Exílio


Minha terra não tem palmeiras,
Nem canta o maldito sabiá
As aves aqui não gorjeiam,
Pois ganem as vozes que tento calar
Minha terra não tem bosques,
È feita de uma só cor
Nela, transcorre um fio de vida
Estreito demais para abrigar o amor
As flores nascem fedorentas,
Do solo da minha terra morta
Mas nascem cheios de ira os espinhos
E minha carne em ódio se corta
Meus olhos arregalados vagam sozinhos
A procurar criaturas nojentas
Como eu, que venham a vagar,
Por meu vasto e vazio império,
Venham me espreitar
No meu cemitério,
O submundo da minha mente,
A claridade por aqui não passa
Pois em meu negro coração é ausente
E nada o fará bater, faça o que se faça
Pois em meu antro, a vida é uma especiaria
E um tesouro é a sanidade
Servida está, em todo o canto, a agonia
Os lagos são podres e salgados
Pois são feitos de lágrimas de saudade,
Sonhos, amores que morreram afogados
A infância, estrondoso relâmpago,
A inocência que ainda não conheci,
Passou rápido, mudo feito um afago
Quando tentei reencontrar foi quando morri...
Flores


De que me adianta ter gente
que me joga flores
se nem ao menos posso ver as cores
além da escuridão latente?
De que me adiantam flores
se não sinto os odores
nada ouço além de vozes doces
que somem além da escuridão
e mãos que se fecham na minha solidão?
Não se cansam de cair as flores
queda inútil, à lama levará
assim como eu, o que cair, apodrecerá
o fracasso exibe sua imagem e seus horrores
Malditas sejam as flores a perturbar-me a razão
zombando da minha condição,
adoçando com dó meus dissabores
Afundem todas as flores e não me venham com piedade
nem memória, nem saudade
nem feridas ou vãos amores
Deixem-me só, as flores
só, com migalhas de pensamentos
abortados sentimentos
queridas e inúteis dores
que na carne me fazem humana,
ferem a criatura desumana
Cresce da fúria do abandono,
junto ao olho e seu escuro adorno,
meu ódio, minha força que ascenderá
Não flores,
mas a vida que deu a elas as cores,
me vingará
Estrela Guia


Pelo deserto, sozinha andando,
Mórbida, pedaços de esperanças, catando
De vontade, sinto minhas pernas munidas
Em meus ossos, últimas forças reunidas
Um dia sei que poderei seguir livre
O rastro para onde minha estrela guia vive
Vida que por tanto tempo me foi ocultada
O direito de poder ver a noite estrelada
Olhos cegos, mente vazia,
Que há muito não lembra da luz do dia
Seca, quase sem esperança
Mas viva, na alma, a perseverança
Pois no fundo, criatura sabe
Que desânimo, nesse mundo, não cabe
Onde cada animal briga por seu osso,
Não há piedade no fundo do poço
Não há tempo para dó aos desgarrados
Não se pode parar para juntar os derrotados
Conhecida a crua e cruel realidade,
Cabeça, levanta-te, ponha um pouco de vontade
Para buscar em si mesma o seu melhor,
Ou encontrar um motivo de força maior
Que torne mais fácil de lavantar,
Ânimo para finalmente encontrar
Forças para viver,
Forças para amar,
Forças para sonhar,
Forças para lutar
Certamente, nem falar é fácil,
Quando se trata desse inferno hostil
Contudo, é preciso superar as crises
Rápido, sarar as cicatrizes
Que não me veja, o inimigo, suspirar
Fundo e breve, preciso respirar
Não posso mais me esconder na escória
A mim, cabe ser heroína da minha própria história
Retirado foi o espinho,
Ser, antes acuado, agora não está mais sozinho
Sobre sua cabeça, estrela guia ilumina
Altiva, brilho irradia, poder fulmina
Tão grandiosa, tão bela, criatura irmã
Dela me foi dado o apreço talismã
O motivo que me rege,
A luz que me protege
Forças para lutar,
Forças para enfrentar,
Forças para viver,
Forças para amar,
Forças para sonhar
Agora, já posso ver nascer as flores
Agora, já posso ver novamente suas cores
Que se inicie minha jornada,
Estou pronta para minha caminhada
Pois a vida não é mais tão escura e fria,
Leve-me que te sigo, estrela guia!