sexta-feira, 21 de abril de 2017



Quero aprender a voar,
Quero saltar do sétimo andar
Sem pensar no fatídico momento
Da ruptura de cada ligamento

Minhas entranhas pararão de doer
E meus parentes, um dia, hão de entender
Pois meus poço é mais fundo do que parece
E gente como eu, nesse mundo, sempre perece

Mas em segredo de confissão,
Temo o instante da minha carne tocar o chão
E a vergonha de gritar por socorro em vão
Muito mais do que o alheio, ou o divino sermão

Eu bem que gostaria de viver sim,
Em um mundo que, só na minha mente, existe
Onde não estivesse amarrada ao semblante triste
E ao menos, um pingo de paz, houvesse em mim

A vida, para uns, é uma dádiva
Para mim, é uma coroa de espinhos
Que inspira apenas a minha lástima
Colocando meu estômago em redemoinhos

Não quero mais continuar viva
Apenas para seguir respirando
Por medo de morrer, continuar cativa
Escorada nas paredes, todo o dia, lamentando

O abismo está logo ali
E espera a todos os que estão aqui
Aceito o desafio e pulo!
Pois, essa vida, eu não mais engulo

Como boa ave suicida,
Quero alçar meu último vôo
Apagar, de vez, meu nome da vida
E o rastro desse mundo que me dá enjôo

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Dança dos Corvos


Não posso ver uma janela
Sem que eu resista a me jogar
A morte é uma sinfonia tão bela
Fecho meus olhos e me deixo bailar
Apaga minha dor como quem apaga uma vela,
Cuja fumaça faz minha alma se dissipar
Não mais careço da vergonha diante do espelho
E minhas costas se despedem do seu relho

Uma flor negra toma o céu
Nas asas de pássaros inquietos
Embelezando a janela do meu mausoléu
Colocando meus intestinos despertos
A clamar a salvação desse pobre réu
Diante de seus medos certos
Finalmente, meus ossos gozam de um pouco de paz
Ao vislumbrar o sepulcro onde meu corpo jaz

Voar o mais alto que se consegue
Para depois despencar de costas
Mais rápido do que a vergonha o persegue,
Cai um corpo de asas justapostas
No leito eterno em que sua alma sossegue
Flores vermelhas, no chão, dispostas
Um frio domina minhas entranhas corroídas
Que reviram-se ao bailar dos corvos suicidas

Tamanho desprendimento,
Ou tamanha loucura
O faz ignorar o quinto mandamento
Tamanho arrependimento,
Ou a certeza do sofrimento
O faz fugir quando Deus o procura
A ponto de crer que a morte é a cura
De todo o mal, o único livramento

Há muito tempo, venho me esgueirando
Feito um pássaro com as asas quebradas, agonizando
Implorando que a morte me leve
Ou quem sabe, o diabo se canse e me carregue
Não quero mais invejar cada corpo que se despedaça
Desejar que fosse eu cada alma que vira fumaça
Quero fazer a mim mesmo esse favor
Entrar no vale dos suicidas com louvor

Meu sangue tecerá o tapete vermelho da minha chegada,
Varrendo o vexame a que minha vida foi consagrada
Debaixo da minha mortalha, ensaio meu último sorriso
A despeito do meu cadáver, a vida inteira, submisso
Fechem logo a tampa, carreguem meu caixão
Mal posso esperar para estar a sete palmos abaixo do chão
As cicatrizes na pele não são meros cortes entalhados, 
Mas litros e litros de choro, em uma existência, sublimados

Com a corda amarrada no pescoço,
Exalto as penas caídas sobre o chão
Como, outrora, exaltei as estrelas na imensidão
Que, a essa altura, já serviram aos urubus de almoço
De cima da cadeira, faço um pequeno esboço
Até que o pé resvale no fatídico empurrão
Que não me duvidem todos os dementes:
O inferno é apenas para os valentes

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Melancolias e Alguns Versos VIII


Gostaria de não ter mais
Um coração preso ao meu peito
Assim, não sofreria jamais
E minha existência teria algum jeito

E meu olhos não mais seriam
Como nuvens carregadas
Sobre o meu rosto, não mais choveriam,
Deixando minhas esperanças nubladas

Minha entranhas não mais sangrariam
A mágoa que não conseguem remoer
Minhas veias não mais sofreriam
Com a ira, no sangue, a ferver

No meu mundo de fantasia,
Embora o ódio dê cria,
Ainda há uma certa magia,
E ninguém triunfa sobre a minha sangria

Há um horizonte além da dor
Trancafiado na minha mente
Onde sobrevivi, mesmo doente,
Após ser banida pelo Criador

Amaldiçoada desde a concepção,
A vagar por esse mundo sem amor
Assumo minha solidão como única opção
Pois não cabe mais em mim tanto rancor

Não há paz em meus ossos,
Meus intestinos serpenteiam em meu ventre
Meu estômago já não digere tantos remorsos
Abro minhas portas para que a loucura entre

Tanto fugi do que realmente sou,
Que meu pecado por fim me encontrou
Alastrou-se pela minha alma feito pestilência
Roubando-me a sanidade e a decência

Tanto fugi aos olhos do Divino,
Para não tomar em vão seu santo nome
Fechei minha bíblia e aceitei meu destino
Com meu próprio sangue, saciei minha fome

Fechei meus ouvidos às verdades sagradas,
Juntando-me à massa de almas desgarradas
Meu espírito afunda em mares revoltos
Onde jazem meus sonhos natimortos

quarta-feira, 19 de outubro de 2016


Menina porca, avançou-se no banquete
Comeu com tanta ignorância,
Que não aguentou mais a ânsia
E vomitou tudo no tapete

Menina porca, vá se olhar no espelho
Olhe só o tamanho do seu traseiro
E ainda quer que um homem lhe jure amor verdadeiro
Eu vou é te dar uma surra de relho!

Menina porca, limpe já esse chão!
Olhe a sujeira desse quarto!
Para você se mexer é um parto
E depois não sabe por que está desse tamanhão

Menina porca, não fale sozinha
Não bastasse ser gorda, ainda é louquinha
Não me envergonhe diante dos vizinhos
Não aguento mais sair na rua e ouvir burburinhos

Menina porca, que comida mais horrível!
Nem para cozinhar se presta,
Mas come que chega a ser incrível
Temo pelo futuro que te resta

Menina porca, que louça é essa na pia?
Tenho mesmo que bater nessa sua cabeça
Para ver se entra algo na sua mente vazia
E, algum dia, quem sabe, você cresça e apareça?

Bem-feito, menina porca!
Não adianta ficar toda mordida
Só por que descobriu que está sendo traída
Afinal, quem quer a seu lado uma orca?

Menina porca, por favor, tenha logo um infarto
Assim você para de comer
E eu me livro logo desse fardo
Pois você nunca será feliz enquanto viver

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Adeus Amigos

Quantas e quantas vezes tive que me ajoelhar
Para o dono do amazém da esquina
Se não quisesse chegar em casa e apanhar
Minha memória era minha triste sina

Quantas e quantas vezes também me ajoelhei
Para não ser expulsa da única casa que conhecia
Embora, a felicidade, ali, nunca batia,
Mas, pelo menos, na rua, não me criei

Quantas e quantas vezes chorei,
Pois minha mãe estava doente,
Mas meu pai era todo sorridente
E o preço do ódio, fui eu quem paguei

Quantas e quantas vezes me lembro de ter ajoelhado
Para minha colega devolver o caderno
Que eu havia emprestado
Em troca, fui parar no inferno

Que maldição, ainda estou ajoelhada!
Tudo, para me manter empregada
Enquanto meus inimigos dão risada
E aqui vomito minha ira engasgada

Pela primeira vez sorri,
Recolhi do chão, meus joelhos achatados
A crueldade foi tanta que enlouqueci
E minha loucura deixou meus dias contados

Adeus amigos, não voltarei a perturbar
Adeus amigos, aqui nunca foi mesmo o meu lugar
Adeus amigos, deixem minha alma em paz no infinito
Adeus amigos, façam o favor de esquecer que eu existo

Meu coração está prestes a rasgar o peito
Encontro-me amolecida em meu leito
Espero que a náusea não me acompanhe no além
Já que, a vida inteira, dela, fui refém

Há tantas coisas que eu queria ter realizado
Tantas outras, eu daria tudo para ter apagado
Mas, nem de tudo, vejo-me arrependida
Até que não me saí nada mal como aprendiz da vida

Não deixarei carta de despedida
Em alguns, ficará a dor desmedida,
Embora muitos, expressarão a alegria da minha partida
Saio da minha vida, como de tudo saí: de cabeça erguida

Quem quiser, acenda uma vela por mim e ore
Quem não conseguir segurar, tudo bem, apenas chore
Quem quiser, está convidado a cuspir no meu caixão
Tanto faz, já estarei a sete palmos abaixo do chão

Adeus amigos, estou indo para não voltar
Adeus amigos, aqui nunca foi mesmo o meu lugar
Adeus amigos, fiquem contentes por mim
Adeus amigos, meus joelhos estão livres, enfim

sábado, 14 de maio de 2016

Aos Pés de Jade

Feche a janela, meu amor,
Pois o frio da minha alma já me basta
Não necessito de nada do mundo exterior
Que, por natureza, já me devasta

Só seus braços podem me aquecer
E seu sorriso me fazer levantar
Só seu colo pode me acalentar
E do meu tormento, fazer-me esquecer

Meu mundo não é pequeno,
Apenas não preciso de mais nada
Não é fácil sorver o veneno
Mas, com você, minha alma é blindada

Leve-me ao paraíso,
Nem que seja por um instante
Dádiva negada a mim pelo Juízo
Minha eterna sina sufocante

Em seus braços,
Não há pranto nem ranger de dentes,
Ou alma em estilhaços,
Pois os sonhos se fazem presentes

A seus pés, aqui estou,
Amada Jade
Enfrentando o calor ou a tempestade
Pois agora sei que anjos são de verdade

Você é a única verdade em meu mundo
A marca de Deus na Criação
O berço do meu sono profundo
E não à toa, minha inspiração

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Injúrias Póstumas

Não queime meu corpo
É tudo o que tenho a pedir
Não sou um cachorro morto
Mesmo que não queiras se despedir

Por menos louvável,
Que tenha sido minha tragetória
Não precisa fingir ser amável
Só não insulte a minha memória

Não necessito de lágrimas
Debochando do meu caixão
Fechem essas bocas pasmas
Quero apenas a chuva molhando o chão

Não roubem minha coroa de flores
Permitam-me essa pequena satisfação
Em receber uma única condecoração
Que me faça valer todos esses anos de dissabores

Dispenso a missa de sétimo dia
Não precisa transferir a terceiros
A tarefa de lebrar da minha vida vazia
Apenas deixem os vermes serem ligeiros

Não sou tola o bastante
Para pensar em deixar saudades
Seria muito arrogante
De alguém que, sequer, teve amizades

Se fui uma boa filha,
Ou uma completa estabanada,
Isso já não vale mais nada,
Para quem já encerrou sua trilha

Nenhuma ofensa mais me importa
E também a tardia gentileza
Não cansem minha beleza,
Uma vez que já estou morta

Não profanem minha lápide
Escarneçam minha reputação
Uma última vez, antes que seja tarde
E me deixem sozinha na minha escuridão

Esteja onde estiver, estou em paz agora
Meu estômago está livre do seu carma visceral
Dirijam-se ao portão, está na hora
Já anoiteceu e acabou meu funeral